Um ano depois, um pouco mais que aprendi sobre minha paixão Bossa Nova

25 de janeiro de 2021 foi o dia em que inaugurei este blog com os primeiros textos. Um, especificamente sobre a data, abordava o Dia Nacional da Bossa Nova, além do aniversário de nascimento de Tom Jobim – com menção honrosa também ao aniversário de Sampa, à qual dediquei meu último post. Um ano depois, posso dizer que conheço um pouco mais sobre a Bossa Nova, depois de ler a obra-prima de Ruy Castro, “Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova” (Companhia das Letras), a reconstituição histórica do movimento e do ambiente no Brasil, antes, durante e depois dela. Sempre admirei Ruy de longe, o que se potencializou ainda mais após o curso sobre biografia que fiz com ele, via Zoom, no meio do ano passado. Imediatamente fui atrás de sua biografia sobre Garrincha (sobre a qual também escrevi aqui) e em sequência, do “Chega de Saudade”.

Como você pode reler acima, falei em “movimento” Bossa Nova. Esse talvez seja o maior ensinamento que o livro me deixou – que a Bossa Nova não foi uma música, um estilo, mas sim algo muito maior. Foi uma geração, uma mudança, um momento no Brasil que durou mais de dez anos. Que começa a germinar na época dos fã-clubes como o Sinatra-Farney (dos adoradores do astro americano que perpassou décadas, Frank Sinatra, e do também crooner e também amado, mas brasileiro, Dick Farney). Influências deste tempo, mais ou menos anos 40, e o desejo de muita gente do meio em trocar a sintonia de dor de cotovelo e da não correspondência amorosa que era regra na época, levavam à procura por uma criação nova, que representasse mais aquela juventude que estava vindo.

Aí está também um grande equívoco da minha parte: atrelava a Bossa Nova quase que somente a João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e mais poucos, quando, na verdade, sua história contou com muito mais gente, não só na sequência desse estilo de música, mas na responsabilidade por seu surgimento. Carlos Lyra não foi um mero “parceirinho” de Vinicius, foi também um pai da Bossa Nova, assim como outro gigante, Roberto Menescal, também Ronaldo Bôscoli, outro nome que não tinha dimensão da importância. A lista é vasta, sem esquecer históricas cantoras brasileiras que morreram cedo demais: Sylvia Telles, Dolores Duran e Maysa, sobre a qual – não posso deixar de dizer – o poeta Manuel Bandeira referiu-se ter olhos que eram “dois oceanos não pacíficos”. As três têm destaque no livro por sua importância à época e ao que nela se fazia de música por aqui.

Agora em dezembro de 2021, Caetano Veloso foi entrevistado no programa Roda Viva da TV Cultura após 25 anos, e em um de seus saborosos relatos, disse que foi Vinicius de Moraes quem inventou essa história de “Brasil feliz”. Afinal, segundo contou Caetano, até as letras do poetinha na Bossa Nova, a música brasileira ia por um caminho, como dito, mais melancólico e desalentado. Até a chegada do “grande feriado”, como o próprio Ruy Castro batizou o período da Bossa Nova, que eram repletos de otimismo e veneração ao “amor, o sorriso e a flor”, inseridos na canção “Meditação”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, e que também foi tema de um dos grandes shows da Bossa Nova feitos aqui. Fora do Brasil, o movimento teve e tem ainda mais sucesso. É mais tocada e valorizada. Passagem épica foi a do encontro de Jobim com Frank Sinatra, na feitura do disco de ambos e em gravação para a posteridade – confira: https://www.youtube.com/watch?v=NldPFVKYmiw

Das partes que mais gostei da obra também foram as histórias de João Gilberto, este artista tão peculiar da nossa música, e tão genial. O livro começa em Juazeiro, na Bahia, cidade natal de João, na época da sua juventude – anos 30 e 40. A narração de Ruy Castro transportou-me para lá, e quase que avistava Petrolina, cidade pernambucana do outro lado do Rio São Francisco. Depois, vem a saga do cantor, violonista e compositor baiano, que precisou se dar uma segunda chance no Rio de Janeiro para estourar para o mundo. Na primeira, não deu certo e pulava de apartamento em apartamento de amigos, morando de favor, pois não se mexia em fazer outra coisa que não fosse dedilhar seu violão, e mostrando aos próximos as palhinhas da sua genialidade. Ela tornou-se pública anos mais tarde, após passagens de João por Porto Alegre (RS), Diamantina (MG) e Salvador (BA), mandado pelo pai para consultar um psiquiatra, preocupado que estava com a “inércia” do filho.

Felizmente João Gilberto voltou para o Rio, encontrou-se com Tom Jobim, já parceiro de Vinicius de Moraes, e do disco “Canção do Amor Demais” (lançado em 1958), cantado por Elizeth Cardoso e com a canção “Chega de Saudade” – composta por Tom e Vinicius e tocada por João – como a principal faixa do disco, surge o primeiro marco da Bossa Nova, reforçado pelo disco posterior apenas de João Gilberto, quando se consolida o gênero. E aí, a semente da flor fora plantada, no público e nos músicos, que reconhecem no novo estilo o que tanto queriam fazer. Cinquenta anos depois do lançamento de “Canção do Amor Demais”, descobri a Bossa Nova, apaixonei-me e um mundo se abriu pra mim. Seus principais nomes já se foram, mas fizeram para sempre morada no meu e em tantos corações por esse mundo.

Não posso deixar de agradecer, com muita sinceridade, às pessoas que leem os posts do Meu Patrão. Tudo aqui é feito com amor, com intenções que nem tenho muito certas, sabendo apenas que me fazem bem e a algumas pessoas que leem. Isso me alegra muito e me motiva a continuar. Por favor, sigam comigo e, se quiserem, inscrevam-se para receber os posts no e-mail! De coração, novamente, obrigado.

João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes com Os Cariocas, em show de 1962 que marcou a Bossa Nova

Publicado por Fábio Blanco

Jornalista, natural de Londrina (PR), que quer explorar o que o encanta no mundo através da escrita. Apaixonado por futebol, música e pelas belezas do cotidiano, em detrimento das suas regras e poderes. Humano, acima de tudo.

7 comentários em “Um ano depois, um pouco mais que aprendi sobre minha paixão Bossa Nova

  1. Fábio, esse texto complementa o seu primeiro aqui no Meu Patrão. Parabéns ! Eu sou fã da Bossa Nova desde pequeno, o que facilitava essa música chegar até a gente era que a MPB fervilhava nos anos 70, mesmo sendo os anos de chumbo. Apesar de ter iniciado nos anos 50, a Bossa Nova era popular na minha juventude, hoje é um som cult , eu acho . Em casa , Lucas adora Bossa Nova apesar de ter nascido em 93. Sabe que eu fui a um show do Vinícius e Toquinho nos anos 80 em Curitiba ? Quando disse isso a Toquinho no avião, ele respondeu : – Rapaz, faz muito tempo , hein ? abraço

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    1. Querido Rui! Sua amizade foi o grande presente deste blog, sem dúvidas. Obrigado por sua assiduidade nas leituras e nos comentários.. valeu mesmo!
      Pois é, muitas vezes já disse que nasci na época errada! hahaha.. infelizmente as músicas feitas hoje estão a anos luz dos tempos de Bossa Nova e da sua juventude. Ainda bem que essas últimas estão todas prontas e acessíveis, né?! heheh
      Sobre o show com Vinicius e Toquinho, invejo demais! Não não foi anos 70? Porque o Vinicius morreu em 80.
      Fui a dois shows do Toquinho aqui em Londrina. No primeiro, no Ouro Verde, fiquei na primeira fila. Sou fã de carteirinha do Toco, mas não ter visto Vinicius é dos meus maiores lamentos.
      Garoto, valeu demais! Abração pra você!!

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      1. Oi Fabio, obrigado pela consideração. Você foi o que me encorajou a sair do armário, sempre vou lhe ser grato por isso. Pois é , acho então que foi em 79 esse show no Guairão, meu primeiro ano de Curitiba . Lembro que os dois comemoravam 10 anos de parceria. O Vinícius cantou o show todo atrás de uma mesinha sentado e com um copo de uísque na mão. Lucas disse que pagava 10 mil pra ir num show dele … kkk
        De Vinícius eu toco e canto de cabeça : Tarde de Itapuã, Garota de Ipanema, Samba da Benção ( também em francês ). Tocava , mas esqueci os acordes : Apelo, Cores de Abril , Carta ao Tom 74 e Insensatez ( não sei se é só do Tom … )
        abraço

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      2. hehehe, Rui, eu só dei o empurrãozinho pra você pular do armário, hehe.
        Então era isso mesmo, eles começaram a parceria lá por 69, 70. Essa era a cara do Vinicius, e eu acho que pagaria até mais, viu? hahaha
        Tá louco, você realmente é um violonista! Eu sou só um projeto, impulsionado pela paixão à Bossa Nova, atrapalhado pela vagabundagem, hehehe.
        Já tenho a lista anotada para o nosso encontro presencial! Será que sai em 2022?
        Abração!!

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