Eis a luz da nossa velha vida ao fim do túnel, cada vez mais próxima

Depois de estarmos no fim do túnel, lá onde tudo era escuridão e incerteza, a luz já nos aparece radiante – é logo ali, diriam os mineiros. A ciência nos aproxima cada vez mais da saída desta infindável via que demonstrava ser a pandemia da Covid-19. Nossos sonhos e projetos voltaram – por um bom período, engavetamo-nos. Ainda há, porém, os terraplanistas da ciência, que tiram da maior história furada uma desculpa para não se imunizarem. Ainda bem, aqui no Brasil o movimento antivacina seja uma exceção, diferente do que acontece nos Estados Unidos, onde há muita aderência. Pessoas aparentemente esclarecidas ecoam as mais conspiratórias teorias, China chipando todo mundo e assim vai… As mães desse pessoal abusaram de histórias de chupa-cabra, homem do saco ou seja lá as lendas que contem nos States ou em outras partes do mundo.

É objeto de grande curiosidade minha, a maneira como cada ser humano faz interpretações sobre o mundo. Certos acontecimentos, no entanto, não são teorizáveis nem pelo pai da psicanálise – alternando o jargão para “nem Freud explica”. Apegar-me-ei, então, ao palpável hoje, como o nosso retorno gradual à vida como conhecíamos e estávamos habituados. O velho normal está voltando aos poucos, mas agora renovado, tinindo e distribuindo abraços e apertados de mão com vontade – o soquinho já começa a perder força nos encontros mundo afora.

É uma sensação única reencontrar velhos hábitos que haviam sido abandonados, até porque estamos destreinados. Eu ontem joguei minha primeira pelada desde o agravamento da pandemia, e saí chateado comigo. Um lançamento ou outro, uma tentativa de ataque, passes laterais até saíram, mas meu desempenho foi comprometido pelo físico. Mesmo seguindo com minhas corridas durante a pandemia, foi só dar dois ou três piques para sentir o peso do tempo. O ar falta facilmente e, já doido para ouvir o apito final, uma forçada a mais na perna puxava a coxa, a panturrilha… Um show de horrores. Já na ducha morna em casa, passei a mão na minha cabeça: “tudo bem, né? Primeiro jogo… Vou melhorando com as semanas”.

Outra coisa que fiz, muito legal, no dia de Nossa Senhora Aparecida e dia das crianças, foi o passeio até Ortigueira, aqui no Paraná, a cerca de 130 km de Londrina, onde moro. Confesso que nunca havia ouvido falar do que tinha lá, ou ao menos não dei importância. E que surpresa! Fui de convidado da família da minha namorada, moradores de Apucarana, que tem a aventura nas veias. Fica mais fácil entender de onde vem a disposição para acordar às 5h30 da manhã de um sábado pra andar de caiaque, entre outras peripécias da minha amada Paulinha. Pois a família toda levantou cedo e colocamos o pé na estrada, percorrendo os pouco mais de cem quilômetros até o destino.

O passeio começou na linha de trem, que em certo momento é construída em cima de uma ponte. Claro que ninguém se contentou em olhar de longe. Lá foram eles – e eu, sem poder fazer feio com a Paulinha e sua família – caminhar em cima da ponte. Nas laterais do trilho, em alguns lugares, foram construídos espaços para os operadores, muito convidativos em ser a área vip para ver o trem passar. Sim, a nem um metro de distância, e amparados pela grade que nos impedia de cair da ponte. Eu disse, a família é aventureira.

Depois do almoço, fomos à gruta que fica aos pés do Morro Pedra Branca, foco principal do passeio. Curtimos a beleza da gruta, colocamos os pés na água da corredeira e os meus quase ficaram por ali mesmo, congelados. Partimos em seguida para a vista do morro, que foi mesmo uma surpresa. Alto pra dedéu, e por isso, a vista dava ao infinito. Lá embaixo, as tantas árvores pareciam de maquete. Em contato com a imensidão da natureza, ficamos leves tal qual insignificantes. Separa-se o mundo mental do mundo real, e ficamos mais livres para apenas degustá-lo e apreciá-lo.

A receptividade, a inserção da família da Paulinha para comigo fez-me ser um deles, como seus pais, tios e primos, graças às possibilidades que temos neste momento da pandemia – que é uma tragédia, não é preciso dizer, mas também vi aspectos positivos no isolamento. Não há como negar, porém, que momentos como esse não são possíveis estando sozinho, recluso em um quarto ou vidrado no Netflix. Bom é ter as opções, e felizes os que sabem conciliar as oportunidades. Essas amostras da nossa velha vida, podendo ser vista com novos olhos, muito me anima em poder encontrar, abraçar, viajar, e todos os verbos que deixamos de conjugar, com todo o cuidado para que sejam sempre possíveis.

Publicado por Fábio Blanco

Jornalista, natural de Londrina (PR), que quer explorar o que o encanta no mundo através da escrita. Apaixonado por futebol, música e pelas belezas do cotidiano, em detrimento das suas regras e poderes. Humano, acima de tudo.

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