Já não somos ingênuos à Covid-19, fardo que como pessoas precisamos superar

Há um ano estamos em pandemia. Quem imaginava, lá em março de 2020, que no mesmo mês do ano seguinte vivenciaríamos o pior momento doença até então? É duro, mas também necessário conviver com a realidade. Não adianta reclamar dos noticiários, ressaltar quaisquer medicamentos sem eficácia cientificamente comprovada ou outra atitude que queira maquiar os fatos. Nos últimos dias, são mais de 2 mil mortes a cada 24 horas no Brasil. Não há como isso não nos afetar, e se não o fez antes, incitar sérias reflexões.

Testei positivo para a Covid-19 no final de setembro, e logo em seguida, também minha namorada. Graças a Deus, aqui em casa ninguém da família pegou, menos mau sendo que moro com meu avô de 87 anos e meu pai 62. Mas, como esse vírus já mostrou que não é assim tão racional e seletivo como alguns ainda pregam, poderiam também ameaçar a minha mãe, que ainda não é idosa, meu irmão de 24 anos ou a Edna, nossa doméstica na casa dos 40.

Também agradeço pelo meu caso não ter sido grave – não tive febre nem sintomas respiratórios mais preocupantes -, porém, foi uma experiência ruim. Tive sintomas chatos, como dor no corpo, cansaço, dores de garganta e cabeça – os mais predominantes -, perdi boa parte do paladar e olfato, e claro, cumpri os dias de quarentena. De tudo, essa foi a pior parte.

Ficar restrito a curtos espaços da casa, ser intermediado a todo momento para comer ou pegar algo que precise e lavar severamente as mãos com sabão e álcool a cada movimento, depois de 10 dias, não é nada fácil. Sorte ter quem me ajude, mas se ainda não passou por isso, acredite: é bem pior do que apenas ficar em casa para evitar contato com outras pessoas, o que é um grande aliado na luta contra esse vírus tão destrutivo. E ainda, vez em quando, é preciso lidar com pensamentos sobre a piora da situação, que – Deus me livre! – pudesse causar a minha morte.

Sim, amigos e amigas, esses pensamentos são inevitáveis, e nada bons. Com tudo isso que, quem teve a doença em situações mais amenas também sabe, fico imaginando como é viver suas piores nuances – ainda mais, hoje, com nossos hospitais não suportando mais a quantidade de doentes. Sempre respeitei o vírus, mas endureço as minhas restrições conforme a situação no Brasil piora. Estamos em um momento bem diferente de um ano atrás.

Na época, sabíamos ainda bem menos do que hoje, não tínhamos milhões de mortos pelo mundo e milhares no Brasil. Achávamos, ou queríamos achar, que dentro de uma, duas semanas, um mês, vai, tudo estaria mais calmo. Não tínhamos ideia da proporção, ainda não conhecíamos vítimas fatais, e a pandemia não tinha mexido tanto com a nossa rotina e com nossas preocupações, com saúde, emprego, compromissos e tudo que sabemos hoje.

Já faz um ano! O monstro já se provou feroz, é insanidade duvidar dele. Não podemos mais perder pessoas queridas, precisamos evitar danos maiores nas nossas vidas e dos outros! Claro, as pesquisas devem e vão continuar no combate contra a Covid-19, mas seus efeitos e devastações estão à nossa frente. Não se responsabilizar diante desse caos não é questão de opinião, escolha ou distraída negligência. É o que nos fará pessoas de fato.

A momentos assim dedico o meu viver e busco um sentido. Menos vale hoje a posição social de cada um, quão glamorosa ela é. Inserido no contexto da pandemia, e dela fazendo pouco caso, sinceramente não sei qual alimento insosso um indivíduo assim busca para viver. De que se abastece o nosso presidente da República, negando um vírus que mata sem piedade por um ano todo? Cansei de buscar entender.

Infelizmente acredito muito pouco na política e portanto não tenho ídolos nela – de qualquer lado. Vejo por vezes as lideranças na constrangedora posição de crianças que fazem arte e, se vendo em apuros, culpam uma à outra. Sofremos a falta de líderes críveis, preocupados, abnegados do poder por si só. Heróis mesmo, já sabemos, são os profissionais da saúde que merecerão ser louvados por toda a vida.

Está difícil passar por isso? Ninguém nega. Em uma sociedade movida à satisfação a todo tempo e podendo colocar a si mesmo e a outros em risco para supri-la, há algo de muito mais compensador do que os desejos vazios e incessantes aos quais somos submetidos. Nossa constituição como pessoas inteiras e prósperas, faz-se, como nunca, agora. Para não deixar esse mundo e não levar nada, e para manter o que é comum e que é bom: viver.

Imagem muito triste e comum ultimamente, com hospitais superlotados e dependentes da maior conscientização da população brasileira

Publicado por Fábio Blanco

Jornalista, natural de Londrina (PR), que quer explorar o que o encanta no mundo através da escrita. Apaixonado por futebol, música e pelas belezas do cotidiano, em detrimento das suas regras e poderes. Humano, acima de tudo.

4 comentários em “Já não somos ingênuos à Covid-19, fardo que como pessoas precisamos superar

  1. Fabio, muito sensato e lúcido o seu texto! Em outros tempos eu já teria pegado uma avião para finalmente te conhecer pessoalmente… Espero ter ainda essa oportunidade, mas não posso ainda estimar a data do nosso encontro, infelizmente. Mas temos o dia de hoje e isso já é um grande presente de Deus , neste cenário de guerra que nos encontramos. Abraço

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    1. Eita Rui, é verdade cara.. não falta vontade da minha parte também, viu? Obrigado pela leitura e comentário de sempre, fiquei feliz. Espero o quanto antes poder enfim te dar um abraço e prosearmos tudo que precisamos, ao vivo e a cores. Grande abraço, meu amigo!

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