Minhas histórias com o “formidáve” pioneiro de Londrina, meu avô Henrique Blanco

Nesta semana, dia 3 de março, se vivo meu avô Henrique completaria 101 anos. Faleceu em 2014, de repente. Ninguém esperava, afinal o véio estava a todo vapor. Só era meio surdo já há bastante tempo, tanto que quando falávamos com ele já era normal subirmos o tom de voz para que nos escutasse bem. Mas era uma figura. Pioneiro de Londrina, ele viu e participou do crescimento da cidade, onde construiu sua família e também ajudou muita gente.

Nascido em Piracicaba (SP), assim como minha avó Lídia – que completaria 100 anos em 2021 -, veio com ela para Londrina em 1947, quatro anos depois de se casarem e de terem a primeira filha, minha tia Ivone. Irmã Sônia, minha tia freira e segunda filha dos meus avós, tinha um ano de idade. Aqui, montaram a Venda do Henrique Blanco, um armazém à moda antiga que vendia os chamados secos e molhados – produtos como arroz, feijão, sabão, açúcar, fubá, querosene, álcool, cachaça etc. – para toda a região rural do “Apertado”, na Estrada do Irerê, km 20. Meu avô atendia as fazendas e comprava cereais delas, que vinha revender em Londrina, onde aproveitava para comprar no atacado e abastecer o seu comércio.

Meus avós e tios moravam nos fundos da venda e lá também nasceram o meu tio Dirceu e meu tio Jonas. Meu pai, a rapa do tacho, veio ao mundo aqui em Londrina. Depois de 20 anos tocando a Venda do Henrique Blanco, meu avô passou a administrar os imóveis que construiu pela cidade, enquanto ela crescia. “HB”, como a família se referia a ele pelas inicias, comprou vários lotes que foram se valorizando com o tempo. Mão de vaca que era, seu modelo de administração era sempre focado na economia, que incorporava também nas compras domésticas. Vidrado num supermercado, o véio sabia com exatidão onde encontrar cada produto pelo preço mais barato. O motorista particular Blanco da vez que tratasse de tomar uma boa dose de paciência antes de girar a cidade inteira de mercado em mercado.

Nos últimos anos da sua vida, eu estava na faculdade e não tinha lá tantas obrigações assim. Já viu, sobrava pra mim pegar o HB e fazer o tour pelos supermercados, que muitas vezes se somavam a passadas em depósitos de materiais de construção, à loja da Catedral onde comprava peças para construir terços que dava de presente, para cortar o cabelo e tudo mais que o vô quisesse. Confesso que não ia muito animado porque sabia que o negócio ia demorar, mas saía muito feliz por ter passado momentos preciosos com o meu avô, que sempre tinham o bônus de muitas risadas e histórias pra contar. Nunca me esqueço da vergonha que me fez passar em um supermercado da cidade. Depois de pegar todos os itens desejados e chegar ao caixa, a moça lhe informou o valor. O véio fechou a cara e começou a analisar produto por produto. Não deu outra, puxou a melhor carne da lista, me deu e disse:

– Devolva, devolva.

Lá fui eu, com a carne na mão e a cara vermelha, recolocá-la na prateleira.

“Rique”, como a minha vó o chamava, podia ter escorpião no bolso, mas o coração abastado de generosidade. Era um dos vicentinos do Asilo São Vicente de Paulo aqui de Londrina, para o qual, sempre que podia, fazia doações. Foi por muitos anos o barbeador dos senhores residentes do asilo e também amolava as facas da cozinha – tarefa que tratava de fazer também aos amigos e membros da família. Dava medo de entrar na oficina que tinha em casa, onde tinha de tudo, dentro. Mas era a distração do meu avô, que consertava e modelava ali os mais diversos objetos.

Homem de peculiaridades, outro aspecto muito engraçado do HB era o seu medo crônico de morrer. É famosa na família uma aposta que ele fez com o meu primo Luiz Flávio, filho mais velho do meu tio Dirceu, que se aproveitou do seu cagaço para ganhar uma boa grana. Isso porque, quando era menino, meu avô tinha retirado um bilhete em um daqueles periquitos da sorte, que “previam” o futuro da pessoa, e decretou a morte do meu vô aos 88 anos. Com a proximidade da idade, Luiz Flávio propôs ao HB a aposta: se ele não morresse, deveria pagar R$ 5 mil ao meu primo. Pois é, aposta alta! Mas e se ele morresse? Nesse caso, era meu primo quem deveria pagar, mas o recebedor, o Rique, estaria morto. Luiz Flávio, então, ficaria isento do pagamento. Nada justo, mas ele argumentou:

– Vô, mas olha, pelo menos o senhor vai estar vivo, e vai estar tudo certo!

Pois o véio não só passou dos 88, como pagou a aposta, feliz da vida.

Dono de espírito aventureiro, o vô não se contentou em comprar terrenos em Londrina, e lá nos anos 70 foi explorar a desconhecida praia de Itapoá (SC), onde manteve por muitos anos a sua casa de veraneio, que era frequentada por todos da família. Uma vez me contou que foi pra lá – já com a idade mais avançada – e logo ao chegar foi abordado por um vizinho.

– Ué, Henrique, não morreu ainda? – o vizinho deselegantemente perguntou.

– Pois quando eu voltei lá, ele é que tinha morrido! – completou o vô, e ambos caímos na risada.

Outra vez, em uma das nossas andanças aqui por Londrina, paramos em um depósito de materiais na avenida Duque de Caxias, que era via certa no trajeto, e os funcionários receberam meu avô com toda a felicidade.

– Seu Henrique! Quanto tempo! Não apareceu mais por aqui.

Ele de pronto respondeu:

– Pois é, não morri ainda! – e deu sua gargalhadinha característica.

Fico imaginando o meu vô Henrique vivendo nesses tempos de pandemia. Acho que sofreria demais. Assíduo leitor de jornais, ele suava frio vendo obituários, sempre comparando sua idade à dos falecidos.

– Olha só, morreu novo, com 70 anos. O outro com 60, meu Deus.

E ele com seus 80, 90 anos.

Eu adorava levar as edições do Folha Nova-Norte, o jornal onde fiz estágio no meu terceiro ano de faculdade e aprendi muito. Ele lia inteiro e depois, sempre muito preocupado com as questões da cidade, me sugeria algumas pautas.

Nunca me esqueço também de quando um amigo dele ia completar 100 anos, e me pediu que escrevesse uma mensagem ao amigo. HB me disse mais ou menos o que queria que eu escrevesse, e transformei em um pequeno texto. Terminei dizendo que ele era uma pessoa ímpar, o que me gerou problemas. Meu avô não sabia o significado da palavra, e ficou seriamente receoso em deixá-la na mensagem. Isso me rendeu algumas ligações do HB, eu tentando lhe explicar o que significado, e o vô, surdo e do outro lado da linha, entendendo nada. Não lembro o que foi feito, só que o centenário aniversariante ficou muito feliz e orgulhoso com a mensagem do seu estimado amigo Henrique Blanco.

Devia ter escrito logo que seu amigo era “formidáve”, como ele dizia de tudo que gostava e que se tornou o maior jargão da família.

Vô, você é “forrrrmidááávee”!!! Quantas saudades…

Que um dia voltemos a dar muitos giros e risadas juntos!

Te amo!

Seu neto Fabinho.

*Obrigado à minha tia Ivone e à minha prima Valéria pela ajuda com todas as informações e arquivos do seu Henrique!

Publicado por Fábio Blanco

Jornalista, natural de Londrina (PR), que quer explorar o que o encanta no mundo através da escrita. Apaixonado por futebol, música e pelas belezas do cotidiano, em detrimento das suas regras e poderes. Humano, acima de tudo.

8 comentários em “Minhas histórias com o “formidáve” pioneiro de Londrina, meu avô Henrique Blanco

    1. Lourdes, muito obrigado pela sua leitura e comentário! Fico muito feliz que este sentimento Blanco esteja chegando a parentes que estão longe. Realmente, o vô era muito especial. Beijão carinhoso pra você!!

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