Ex-bebedor inveterado, há mais de um ano estou sóbrio e sentindo a pureza de viver

Cada um de nós, no seu íntimo, pode construir conceitos sobre si próprio e sobre o mundo de forma a moldar uma identidade, com aspectos considerados positivos ou negativos. Independente da natureza, tais atributos podem ser danosos se não observados com a nossa verdadeira consciência, que, na verdade, não depende de adições à nossa personalidade. Somos quem somos, como um passarinho que é e nem sabe que é. Hoje, consideramos que somos algo, e amanhã podemos deixar de sê-lo. O problema vem quando, em algum momento, não correspondemos a características com as quais nos identificamos, criando a ilusão de não estarmos sendo quem pensamos que somos.

Nos últimos tempos eu deixei de beber. Era um hábito para mim extremamente corriqueiro. Por um bom período, bebi todo os dias. Mas o capetinha no meu ouvido sussurrava: “não tem problema, hoje está bebendo pouco. São só duas latas, talvez três”. Isso no começo da semana, e a quantidade aumentava conforme a semana passava. Quarta era dia de jogo, quinta era quase sexta, sexta era permitido por lei. Sábado, então, era dia de sair no almoço e voltar só no domingo, quando, você sabe, tinha jogo de novo.

Tendo se tornado componente de “quem eu era”, a paixão pela bebida virou até motivo de orgulho. Afinal, acompanhava os meus amigos, repetia meus grandes ídolos, e era até um dote da minha profissão – “jornalista é boêmio, ora”, eu pensava. Tinha a licença poética, e usufruía dela com afinco. Embora relutando para perceber ou assumir, as altas doses de álcool que eu consumia – em sua maioria, cerveja, mas que especialmente nos finais de semana era potencializada com cachaça e outros destilados – comprometiam não só a minha saúde mas também meu estado emocional. Minha terapia já não andava da mesma forma e o remédio que tomo para equilibrar minha química cerebral ia por água abaixo.

O álcool, uma droga muitas vezes social e com efeito efusivo, é na verdade um depressor do sistema nervoso central, e assim sendo, cobra a conta depois. Como qualquer outra droga, ele causa prazer, e depois, desprazer. Precisando beber mais para chegar ao mesmo efeito, e com a resistência mais comprometida, era mais difícil lidar com as pós-bebedeiras. Quando minha mãe me sugeriu uma quarentena de bebida, achei quase um disparate. Mas topei para provar que não estava assim tão dependente quanto minha família me alertava. Após encarar a dureza do período, sentia-me bem melhor, e pronto para “controlar” minha relação com a bebida.

Agora, eu beberia menos e em determinados dias. Mas a assiduidade era pouca para o meu vício, e não à minha necessidade, até porque, nunca é problema tomar um copinho a mais. Sem alcançar a fórmula imaginada, resolvi ficar sem beber, mas sem estabelecer uma data para voltar, ou dizer que nunca mais beberia. Aderi à famosa frase dos Alcoólicos Anônimos, “só por hoje”. Como já havia trabalhado bastante em terapia a minha consciência do momento presente, de que o presente é tudo que existe e nada mais, foi um grande facilitador. Hoje é sexta-feira, o dia mundial da alforria alcoólica, e eu sei que, hoje, não vou beber.

Tenho colhido resultados excelentes e até surpreendentes. Para quem não imaginava ficar uma semana sem beber, estar tranquilo, há mais de um ano sóbrio, é uma baita descoberta. Afinal, eu atribuía ao álcool o meu fascínio pela música, minha vontade de conversar e fazer tudo que é bom. Quem tem um vício não admite, mas acaba o colocando à frente de outras coisas. Eu era assim, agora sinto o sabor de desfrutar da vida na sua pureza. Não que eu não tenha mais vontade de beber, mas eu sei o tamanho dos ganhos por evitar.

Com tudo isso, não quero dizer que condeno a bebida ou quem bebe, muito pelo contrário. A bebida me acompanhou por muitos anos da minha vida, e não posso afirmar que saiu definitivamente. Aliás, nem quero isso. Vivo o dia, com a consciência de mim e do que me faz bem. Hoje, o álcool não faz mais parte das minhas prioridades, tampouco compõe quem eu sou. O bem-estar e a saúde que sinto hoje me impulsionam a continuar sóbrio para sentir, a partir de mim e nada mais, o prazer de viver.

Cena extremamente comum, tempos atrás – eu com a minha fiel escudeira, que deixou de ser (foto: Valéria Felix)

Publicado por Fábio Blanco

Jornalista, natural de Londrina (PR), que quer explorar o que o encanta no mundo através da escrita. Apaixonado por futebol, música e pelas belezas do cotidiano, em detrimento das suas regras e poderes. Humano, acima de tudo.

9 comentários em “Ex-bebedor inveterado, há mais de um ano estou sóbrio e sentindo a pureza de viver

  1. Fábio, muito corajoso este seu depoimento! Parabéns!
    Como seu tio Alex escreveu, espero que ele encoraja outros a seguirem o seu exemplo.
    E como agora você é um exemplo, mais um motivo para continuar firme e sóbrio!
    Eu também luto diariamente contra mim mesmo. No meu caso, a briga é com a comida .
    A diferença é que com ela, eu não posso cortá-la 100% da minha vida ! Então acho que você teve mais sorte que eu …
    Tamu junto ! Grande Abraço

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    1. Rui, meu amigo, muito obrigado! Realmente, isto me dará mais força com certeza.
      Sei como é, nada fácil segurar uma compulsão. O bom é que com o tempo vamos a enxergando de outra maneira e vendo que podemos ficar sem um vício, podendo ser ainda mais felizes do que antes.
      Obrigado pelo comentário e pelas palavras.
      É nóiz garoto.. aquele abraço!!

      Curtido por 1 pessoa

    1. Ô Sarita querida, que maravilha receber seu comentário! Obrigado de coração, agora quando der certo de festarmos juntos eu vou de cerveja careta! hehehehe… obrigado, viu? Deus te abençoe sempre também, e o meu amigo Sidão também! Abração pra vocês, muitas saudades.

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    1. Julita, minha queridaaaa!! Que bom ter você aqui!! Muito obrigado pela leitura e comentário, viu??
      Continue acompanhando o blog, dá pra segui-lo e aí você recebe os posts no e-mail, se quiser.
      Beijo grande minha amiga, saudades!

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