O futebol é uma paródia da vida, o momento e a história testemunham

Quarta-feira clássica de futebol, mas esta rodada do Brasileirão, como as seguintes, sugerem atenção dos seus espectadores e também, por que não, daqueles que não acompanham a rotina do futebol. Daqui para frente, cinco rodadas para acabar o campeonato e a briga é ferrenha. O Inter, comandado por Abel Braga, o Abelão, arrancou extraordinariamente – de forma, tenho certeza, como ninguém imaginava – e soma nove vitórias seguidas, superando a série inclusive do último campeão nacional, o Flamengo de Jorge Jesus que em 2019 embalou oito triunfos consecutivos, e hoje lidera o campeonato com 65 pontos.

Dirigido por Rogério Ceni, que tem sido questionado no cargo, o Flamengo vem de duas boas vitórias e está ali atrás, em segundo colocado, com 61 pontos. Estivesse o time carioca jogando toda a bola que é capaz, esta disputa não estaria acontecendo, tamanha a superioridade técnica do seu elenco (creio que só o Palmeiras bate de frente, do qual falarei adiante). Mas as recentes trocas no comando mexeram com o desempenho em campo, e agora o Mengão corre atrás do tempo perdido. Ainda pode conseguir, já que enfrenta o Inter na penúltima rodada no Maracanã, e caso não tropece mais e supere o Colorado, contando com alguma outra derrota do adversário direto no meio do caminho, tem chances reais.

A disputa vai até o terceiro colocado Atlético-MG, de quem, confesso, esperava mais. Com 60 pontos na tabela, o Galo começou muito bem, e parecia ser o principal postulante ao caneco. Mas – assim como todos, é verdade – não manteve a regularidade e viu o São Paulo passar à sua frente – este sim, teve uma queda brutal, chegando a estar sete pontos à frente do segundo colocado, e hoje tem os mesmos sete atrás do Inter. Digo que esperava mais do Atlético porque investiu para a conquista, trouxe Jorge Sampaoli, que imprimiu agressividade e intensidade ao time, mas não teve o mesmo sucesso nos resultados que seu colega Abelão, com bem menos tempo de trabalho, e seus comandados.

Quando o Inter trouxe Abel, confesso, achei que fosse dar em nada. Vem na contramão dos técnicos estrangeiros e inovadores que ganharam a preferência dos clubes no Brasil, e me soava já um tanto ultrapassado, como Vanderlei Luxemburgo, por exemplo, demitido do Palmeiras que se acertou com a chegada do portuga Abel Ferreira, ganhando o bicampeonato da Libertadores. Acho inclusive que nem os dirigentes colorados imaginavam tão impressionante campanha, acordando com Abelão um contrato até o fim do campeonato. Claro, pesou o histórico do técnico no clube, com o qual foi campeão mundial em 2006.

O futebol nos prega peças, como a arrancada do Internacional em busca do título que não ganha desde 1979. Ainda mais no Brasil, que tem o campeonato mais disputado do mundo, e podemos dizer sem medo, é imprevisível. O atual líder deste ano vai na contramão do último campeão, o Flamengo de Jorge Jesus, que tinha um jogo vistoso, agressivo, técnico – sempre superior aos adversários. O Inter, dadas as suas limitações, joga bem postado e tem no contra-ataque uma de suas principais armas. Particularmente, não gosto desse estilo de jogo, e sim daquele que se propõe, se arrisca e coloca a técnica à mostra, como o Flamengo de 2019 fazia.

Mas, o Inter segue vencendo. E tem sim seus méritos, e belos jogadores como Patrick – este um coringa -, Edenilson, Praxedes – uma revelação -, o ótimo goleiro Marcelo Lomba, entre outros. O futebol parece até ser uma paródia da vida: imprevisível e não óbvio, onde nem sempre o mais qualificado tecnicamente, vence. Existem, sim, meios de deixar a vitória mais possível, mas nem sempre se consegue a eficácia esperada – muitos fatores rondam as quatro linhas e até além delas para os êxitos nos resultados. Também há a democracia entre os clubes brasileiros em relação às conquistas, o momento em que cada um está melhor. “O futebol é cíclico”, é uma frase que comumente se ouve e é verdadeira.

Eu, são-paulino nascido em 1990, tinha dois e três anos nas conquistas do bicampeonato mundial do timaço comandado por Telê Santana e que teve Raí como o maior craque. Este show eu perdi, por outro lado, tinha 15 em 2005, o ano do tri-mundial, que antecedeu o tricampeonato brasileiro seguido – feito que só o Tricolor tem – em 2006, 2007 e 2008. Na cabeça do adolescente são-paulino, aquilo nunca acabaria. Nós seguiríamos ganhando tudo, pensamento também encorajado pelo marketing do São Paulo, que tratou de nomeá-lo de “Soberano”. De lá pra cá, o cenário se transformou, e lá se vão mais de oito amargos anos sem um título sequer. Desde o último Brasileiro de 2008, só a taça da Sul-Americana em 2012, que eu vi sendo erguida no Morumbi.

Hoje, terei de assistir o Palmeiras jogar o Mundial, claro, secando como um louco. Lembro-me da época do colégio – essa em que o São Paulo construía sua “soberania” -, em que eu vivia zoando meus amigos palmeirenses, e por vezes a brincadeira perdia até a graça. O Palmeiras, me recordo, foi chamado até de Guarani da Capital, em referência ao péssimo momento do futebol alviverde, quando não se via luz no fim do túnel. O clube conseguiu se reerguer ganhando a Copa do Brasil, dois Brasileiros, nesta temporada o Paulista e enfim o bi da Libertadores, tendo a chance de acabar com a zoeira da falta do Mundial, o que – não por secação – acho improvável, dado o adversário pela frente, a máquina de jogar futebol Bayern de Munique.

O aprendizado para nós são-paulinos tem sido duro. Todos os clubes brasileiros já viveram nos áridos tempos sem títulos, sobrevivendo de secar os rivais como os tricolores como eu estamos. Mas torcedor não vive só de vitórias – vive principalmente do amor que nutre o seu compromisso. Por isso, apesar de todas as últimas decepções, não arredo o pé e aguardo ansiosamente por uma reviravolta como a que – goste eu ou não – o Palmeiras deu. O futebol é cíclico, e é uma paródia da vida. É preciso ter fé, invocar o santo, ou simplesmente torcer, para que o sol das conquistas volte a brilhar. Oxalá para o São Paulo ele voltará. Como estamos fora da briga no Brasileiro e no Mundial, me resta assistir e secar, sabe como é.

Palmeiras foi de “Guarani da Capital” a bicampeão da Libertadores, e tem minha secação garantida no Mundial

Publicado por Fábio Blanco

Jornalista, natural de Londrina (PR), que quer explorar o que o encanta no mundo através da escrita. Apaixonado por futebol, música e pelas belezas do cotidiano, em detrimento das suas regras e poderes. Humano, acima de tudo.

6 comentários em “O futebol é uma paródia da vida, o momento e a história testemunham

  1. Bença padrinho! Parabéns pelo texto Fábio . Cada vez que leio um texto seu , eu como um mero aprendiz , absorvo como esponja seca os ensinamentos. Neste por exemplo, o uso de ferramentas que você utilizou como hifen , vírgulas e pontos para dar fluidez e entendimento ao leitor a este texto difícil de ser escrito pelos detalhes necessários a serem narrados para que ele possa contextualizar as informações , mas também não enfada – lo , foi uma aula grátis ! Obrigado
    Concordo com você , na vida e no futebol nem sempre os melhores tecnicamente vencem . Mas tomo muito cuidado para apontar o dedo e condenar um eventual medíocre em posição destacada numa grande empresa por exemplo, porque se ele ocupa esta posição algum diferencial decisivo ele tem , embora eu não reconheça à primeira vista .
    Assim é o Abelao , passou pelo Cruzeiro , ou time das Marias , como nós do Galo as chamamos , em 2019 e não mostrou nada e logo sumiu da Toca . Pra mim ele é ultrapassado, como você bem colocou ,além de ter uma cara que sempre está de porre ! Entretanto , será que as sete ou oito vitórias do Colorado em cola são só coincidências ? Ou será que o santo dele é tão forte assim ?
    E o meu Galo hein ? Ontem com a vitória do Goiás foi um balde de água fria geladissima já gente . .. a vaca foi pro brejo e vai atolar.
    Bora agora secar o Urubu , que apesar de melhor time do brasileiro já ganhou demais em 2019. Vou torcer agora pelo Inter do Abelao cachaceiro ! Hehehe .
    Ah e o seu time hein ? Apesar dele ainda ter chances , nem precisa secar né ? Se Bambis como você e meu eventual futuro genro já jogaram a toalha , nem preciso pagar mais ao pai de santo por essa né ! Hahaha
    Grande abraço. Rui

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    1. Eita Rui, você e suas gentilezas… obrigado, cara, de verdade! Baita força. Está certíssimo quanto ao seu cuidado, admiro esta atitude sua também. Rapaz, o Abelão dar essa ressurgida com esse time do Inter, digamos, longe de ser o favorito, é realmente difícil de explicar. São as peças do futebol. Outra coisa que não dá pra explicar é o seu Galo, Rui, me desculpe! Que fiquei sabendo por você sobre a derrota, e já o coloco fora da briga. Principalmente pela postura de quem quer ser campeão, que inegavelmente o Inter apresenta. Meu São Paulo já perdeu essa postura faz tempo, e ninguém tem ideia pra onde foi. Ele mesmo se colocou fora, não fomos eu nem seu eventual futuro genro. Obrigado de coração por mais este comentário, agora estou seguindo seu blog, que por uma baita dum vacilo ainda não estava. Resolvido. Abraço, meu parceiro!

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  2. Caro Fábio, cheguei a seu blog através do “Aposentei dessa vida”, escrito pelo meu sogro, o Rui.

    Queria te dizer que me identifiquei muito com seu texto. Assim como você, sou São Paulino e infelizmente não presenciei a era mágica de Tele Santana. Mas aos 10 anos, assisti aflito a conquista do tri mundial, e aos 13, o tri-hexa de Rogério e Muricy. .

    Aprendi muito com esse jejum de títulos que vivemos. Percebi que o futebol não é só ganhar, mas também perseverar no amor que sentimos pelo nosso clube.

    Acredito que o futebol também é um debate de ideias. Na minha visão, esse time de 2020 do Diniz devolveu a identidade do futebol propositivo que Tele tanto sonhou para o São Paulo. Pena que faltou aquela vontade de vencer que acostumamos a ver nos jogadores do Muricy.

    Só não podemos agora botar tudo a perder com um técnico retranqueiro. Este estilo de jogo combina mais com nosso rival de Itaquera.

    Concorda comigo?

    Abraço!

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    1. Pô Felipe, que massa tê-lo aqui no blog, já tinha ouvido falar de você pelo teu sogro, que me disse mesmo que era são-paulino! hehehe… obrigado pelo comentário e por seguir o blog, tentarei não decepcioná-lo!
      Sobre tudo que escreveu, estou plenamente de acordo. Você, como eu, parece ser um são-paulino assíduo!
      Em especial gostei do que disse sobre o Diniz, gostava dele como técnico, propunha o jogo, era corajoso (achava muito massa quando tirava um zagueiro e colocava um meia/atacante)… mas claro, tinha falhas como qualquer treinador, poderia destacar a falta de repertório e teimosia só com aquela forma de jogar que você sabe.
      Mas estou de acordo, acho que não há nada melhor pra um torcedor que ver seu time jogando bem, e ganhando, claro! Mas todos que amam futebol querem ver um jogo bonito, e acho que hoje está claro que um jogo bem jogado também é mais efetivo.
      Parece que o São Paulo não vai atrás de um retranqueiro como amam nossos rivais de Itaquera (hehehe), e está por trazer um gringo. Torço pra isso.
      Cara, obrigado mesmo e continue acompanhando o blog! Mais textos sobre futebol e o Tricolor virão, certamente.
      Abração!!!

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  3. Rival de Itaquera….. afffff ! Não sei porque porque vocês Bambis, tem tanta reserva assim com o Timão ? Distribua a sua torcida negativa também com o Palmeiras sô ! hahahaha
    Está ótimo o pinga fogo do Brasileirão por aqui .
    abraço a todos Rui

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    1. hahahaa, ó o sogrão aí na parada, Felipão! hehehe
      Grande Rui, a torcida negativa contra o Palmeiras já tá garantida, como disse no texto.
      Vamos todos juntos e sou Bayern desde criancinha.. mas primeiro vão ter que passar pelo Tigres, né! hehehe
      Abraços a vocês!!

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